Desde a infância em Porto Seguro que ela tem seus ouvidos atentos àquela música de potencial subversivo e transformador. Começou com uma fita do conterrâneo Raul Seixas que o pai músico, tocava no seu bar. Passou pelos Beatles e Elvis, ouvidos em casa pela mãe. E chegou aos decibéis do Faith No More, Nirvana e Metallica, contrabandeados com algum inevitável atraso para Porto Seguro por amigos, justo quando ela entrava na adolescência – fase crítica e decisiva, em que começava à alçar vôo na vida. Pitty se lembra bem: “aquela música casou com meu estado de espírito na época. Eu estudava em escola particular e não tinha luxo em casa. Via as meninas com roupa de grife e não entendia como a imagem poderia ser algo tão importante. Isso me levou a me questionar e me convencer de que o melhor é ser eu mesma”.
Década e tantos depois, a convicção ainda está lá em Admirável Chip Novo. “Ninguém merece ser mais um bonitinho”, canta Pitty em “Máscara”, uma das faixas mais pesadas do disco, digna de um álbum do Helmet. Bonita como uma estrela teen, mas com tatuagens , piercings e vestidos pretos que dariam muito assunto num papo com Phil Anselmo, a cantora se sustenta no cenário com som, atitude e discurso. Forma econteúdo se unem no trabalho dessa pequena notável (Pitty foi o apelido que a menina Priscila ganhou por causa da estatura), disposta a mostrar que o tabuleiro da baiana tem muito mais coisas do que a nossa vã imaginação poderia sacar.
Década e tantos depois, a convicção ainda está lá em Admirável Chip Novo. “Ninguém merece ser mais um bonitinho”, canta Pitty em “Máscara”, uma das faixas mais pesadas do disco, digna de um álbum do Helmet. Bonita como uma estrela teen, mas com tatuagens , piercings e vestidos pretos que dariam muito assunto num papo com Phil Anselmo, a cantora se sustenta no cenário com som, atitude e discurso. Forma econteúdo se unem no trabalho dessa pequena notável (Pitty foi o apelido que a menina Priscila ganhou por causa da estatura), disposta a mostrar que o tabuleiro da baiana tem muito mais coisas do que a nossa vã imaginação poderia sacar.
Na adolescência em Salvador, a espevitada cantora integrou a banda de hardcore Inkoma, que lançou fita demo, participou de coletâneas e lançou no ano de 2000 o CD Influir. “E o que impressionava não era o fato de eu ser menina, mas o nosso som, que era muito tosco. É claro porém, que rolavam algumas piadinhas”, diz Pitty, que se beneficiou de uma cena roqueira que na época abria brechas no sufoco axé de Salvador, de bandas como Lisergia, Dois Sapos e Meio. The Dead Billies e Brincando de Deus.
Mas como tudo na vida, o Inkoma acabou. Atropelada pelos acontecimentos, Pitty foi a luta. Aprendeu a tocar violão, foi estudar música na escola da Universidade Federal da Bahia (onde Tom Zé, em outros tempos, teve suas lições de música atonal com o maestro Hans-Joachim Koellreutter) e começou a compor. As letras vieram dos diários que mantinha desde a infância – com eles, por sinal, que ela começou a se alfabetizar. Sem a menos das expectativas, numa tarde vazia, Pitty recebeu um telefonema do produtor Rafael Ramos (de discos de Los Hermanos, Raimundos, João Donato, Vídeo Hits, entre outros), que era um dos sócios da Tamborete, selo que lançara o disco do Inkoma, informado de que ela compunha para um possível trabalho solo, Rafael pediu uma fita com as músicas em voz e violão. E o resto... o resto ainda há de ser história.
Apesar de estar cheio de músicas fortes, como “Só de Passagem”, “Semana que Vem”, “Emboscada” e “Do Mesmo Lado”, Admirável Chip Novo abre espaço para Pitty se aventurar numa power balada, “Equalize”, que teve a participação do mutante Liminha no baixo, (nas outras faixas, o instrumento foi tocado pelo onipresente Dunga). Mais uma vez, surpresas: diferentemente de um exemplar comum desse gênero popularizado por Kiss, Scorpions e Bom Jovi, o romantismo não é sinônimo de baba. Ao contrário: o componente mais forte na música é o erótico, expresso em delicadas metáforas. “Não fiz uma música sobre amor, mas sobre sexo”, entrega Pitty. Algo que certamente Avril não escreveria por conhecer ainda pouco da vida, e Alanis por estar mais preocupada em ser zen. Mas Pitty, como de costume, não está nem aí para as comparações. E nem pensa muito no futuro, bem ao estilo Kurt Cobain – o que importa é que o trabalho está feito. “Tudo pode mudar. Eu pulei do penhasco e não sei se o pára-quedas vai abrir. Mas se não abrir, também, tudo bem,” diz.
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